Tradução: Eduardo Brandão Editora: Companhia das Letras
Resumo
2666 é um livro singular, de muitas páginas, com uma escrita em certos momentos desafiadora, pelo menos para mim. Bolaño morreu antes da publicação da obra. Fico pensando o que ainda faltaria escrever e quais rumos a estória poderia tomar (ou não) se ele ainda estivesse vivo. Através da leitura de artigos percebi que existe uma conexão com outros livros de Bolaño, e como este foi o meu primeiro e único até o momento, não foi possível fechar ou imaginar tais conexões.
A ideia inicial, como consta na nota do editor, é que o romance fosse publicado em cinco livros diferentes, e pelo que entendi, muito mais por uma questão financeira do que propriamente estética ou de sentido da estória. De qualquer forma, após a morte do autor, ficou definido que o livro seria publicado com as 5 partes, o que o faz um livro um tanto robusto de ler, totalizando 848 páginas. Eles justificam essa decisão inclusive por conta de certas passagens (pistas?) do autor durante o livro, como em que um dos personagens (Amalfitano) conversa com um farmacêutico apaixonado por leitura e reflete com uma certa decepção sobre o prestígio crescente das narrativas breves ao invés das mais extensas.
Em relação a minha percepção, que não é nem de longe especialista no assunto, me senti como se estivesse assistindo a um filme francês, desses que começam de maneira despretensiosa e vai cada vez mais captando a sua atenção sem que você se dê conta. Bolaño tem uma escrita um tanto diferente para a minha experiência literária, e me chamou muita atenção os diversos trechos que ele escreve sem colocar um ponto final, às vezes páginas seguidas sem uma respiração. Estranhei no início, mas logo me acostumei.
De qualquer forma, é um livro que tem praticamente tudo dentro dele, um livro completo, que quando você termina de ler fica com a sensação de que não precisa ler mais nada, ou que vai ser difícil sair dessa imersão que o Bolaño cria em 2666. Existem tantos personagens marcantes e complexos, que é impossível você ficar entendiado ou não sentir conexão com a estória.
A estória envolve um enigma a respeito de um escritor chamado Benno Von Archimboldi, que é alemão. Na primeira parte o tema se concentra em tentar descobrir quem é esse escritor a partir da visão de cinco pesquisadores acadêmicos que estudam Archimboldi. Todas as partes do livro acabam por levar a uma cidade no México chamada Santa Teresa, em que acontecem diversos crimes contra mulheres (estupros seguidos de assassinatos violentos). São muitos, e Bolaño descreve cada um. Nesta parte achei a leitura difícil, não pela narrativa do autor, mas pelas descrições e identificações com as vítimas. É uma parte também com muitas informações e me arrependi de não tomar notas de tantos personagens que aparecem no decorrer dessa parte do livro. De qualquer forma, é admirável a maneira como o autor descreve e narra a estória, fico imaginando como uma mente é capaz de criar algo tão detalhado e envolvente como Bolaño fez em 2666.
Para finalizar, a última parte do livro é justamente sobre Archimboldi, e além de ser uma trama maravilhosa sobre o personagem, é uma verdadeira aula de história sobre o início do século XX (incluindo as duas grandes guerras) pela perspectiva alemã e russa.
É de fato um livro incrível! Indico uma leitura cuidadosa, pesquisando todos os termos, momentos históricos, cidades que aparecem para que a leitura fique ainda mais rica.
Citações e comentários
Separei alguns trechos do livro, e curiosamente são passagens grandes, mas que demonstram um pouco da escrita de Bolaño. Spoiler
p. 208 E a voz perguntou: você é?, você é?, e Amalfitano respondeu que não, e além disso negou com a cabeça. Não vou sair correndo. Não vão ser minhas costas nem a sola dos meus sapatos a última coisa que você vai ver de mim, se É que você vê. E a voz disse: ver, ver, o que se chama de ver, francamente não. Ou não muito. Já basta o trabalhão que dá me manter aqui. Onde?, perguntou Amalfitano. Na sua casa, imagino, disse a voz. Esta é a minha casa, disse Amalfitano. Sim, entendo, disse a voz, mas tratemos de relaxar. Estou relaxado, disse Amalfitano, estou na minha casa. E pensou: por que recomenda que eu relaxe? E a voz disse: acho que começa hoje uma longa e espero que satisfatória relação. Mas para isso é preciso ficarmos calmos, só a calma é incapaz de nos trair. E Amalfitano disse: tudo o mais nos trai? E a voz: sim, de fato, sim, é duro admitir, quero dizer é duro ter de admitir diante de você, mas é a purissíssima verdade. A ética nos trai? O sentido do dever nos trai? A honestidade nos trai? A curiosidade nos trai? O amor nos trai? A coragem nos trai? A arte nos trai? Trai, sim senhor, disse a voz, tudo nos trai. ou te trai, o que é outra coisa mas que no caso dá na mesma, menos a calma, só a calma não nos trai, o que também, me permita reconhecer, não é nenhuma garantia. Não, disse Amalfitano, a coragem não nos trai nunca t o amor aos filhos também não. Ah, não?, fez a voz. Não, disse Amalfitano, sentindo-se calmo na mesma hora.
p. 251
Mas o sol tem sua utilidade, isso não escapa a ninguém que tenha alguma coisa na cachola, disse Seaman. De perto é o inferno, mas de longe é útil e belo, só um vampiro seria incapaz de reconhecer isso. Depois começou a falar das coisas que antes eram úteis, sobre as quais havia consenso e que agora, em vez disso, inspiravam desconfiança, como os sorrisos, na década de 50, por exemplo, ele disse, um sorriso abria portas. Não sei se podia abrir caminhos, mas indubitavelmente portas, sim, abria. Agora um sorriso inspira desconfiança. Antes, se você era vendedor e entrava em algum lugar, o melhor era fazê-lo com um largo sorriso. Tanto se você era garçom como executivo, secretária, médico, roteirista ou jardineiro. Os únicos que não sorriam nunca eram os policiais e os funcionários das prisões. Estes continuam como antes, Mas os outros, todos procuravam sorrir. Foi a era de ouro dos dentistas dos Estados Unidos da América. Os negros, claro, sempre sorriam. Os brancos sorriam. Os asiáticos. Os hispanos. Agora sabemos que atrás de um sorriso pode se esconder seu pior inimigo. Ou, dito de outro modo, não confiamos mais em ninguém, a começar pelos que sorriem, pois sabemos que eles tentam conseguir algo da gente. No entanto, a televisão americana está cheia de sorrisos e dentaduras cada vez mais perfeitas. Querem que depositemos nossa confiança neles? Não. Querem nos fazer crer que são boa gente, incapaz de prejudicar quem quer que seja? Também não. Na realidade não querem nada da gente.
- p. 687
De que Ivánov tinha medo?, Ansky se perguntava em seus cadernos.
Não do perigo físico, já que como ex-bolchevique muitas vezes esteve perto da detenção, da prisão e da deportação, e embora não se pudesse dizer que fosse um tipo valente, também não se podia afirmar, sem faltar com a verdade, que fosse uma pessoa covarde e sem peito. O medo de Ivánov era de índole literária. Isto é, seu medo era o medo que sente a maioria daqueles cidadãos que um belo (ou horrendo) dia decidem transformar o exercício das letras e, sobretudo, o exercício da ficção em parte integrante das suas vidas. Medo de serem ruins. Também, medo de não serem reconhecidos.
Mas, sobretudo, medo de serem ruins. Medo de que seus estorços e seus labores caiam no esquecimento. Medo da pisada que não deixa marca.
Medo dos elementos do acaso e da natureza que apagam as marcas pouco profundas. Medo de jantarem sozinhos e de que ninguém repare na sua presença. Medo de não serem apreciados. Medo do fracasso e do ridículo. Mas sobretudo medo de serem ruins. Medo de habitar, por todo o sempre, o inferno dos escritores ruins. Medos irracionais, pensava Ansky, sobretudo se os medrosos contrabalançavam seus medos com aparências. O que vinha a ser a mesma coisa que dizer que o paraíso dos bons escritores, segundo os ruins, era habitado por aparências. E que o bom (ou a excelência) de uma obra girava em torno de uma aparência. Uma aparência que variava, claro, de acordo com a época e os países, mas que sempre se mantinha como tal, aparência, coisa que parece e não é, superfície e não fundo, pura pose, e a Pose era inclusive confundida com a vontade, cabelos e olhos e lábios de Tolstói e verstas percorridas a cavalo por Tolstói e mulheres defloradas por Tolstói num tapete queimado pelo fogo da aparência.
- p. 701
Detrás de toda resposta inapelável se esconde uma pergunta mais complexa ainda.
- p. 705
A aparência era uma força de ocupação da realidade.
Reiter dormiu naquele dia na isbá de Ansky e se sentiu muito mais à vontade do que se tivesse voltado para casa. Acendeu o fogo na lareira e se jogou vestido em cima da cama. Mas não pôde dormir logo. Pôs-se a pensar nas aparências de que falava Ansky em seu caderno e pôs-se a pensar em si mesmo. Sentia-se livre, como nunca antes havia sido em sua vida, e embora mal alimentado e portanto fraco, também se sentia com força para prolongar esse impulso de liberdade, de soberania, até onde fosse possível. A possibilidade, não obstante, de que tudo aquilo não fosse mais que aparência o preocupava. A aparência era uma força de ocupação da realidade, ele se disse, inclusive da realidade mais extrema e limítrofe. Vivia nas almas das pessoas e também em seus gestos, na vontade e na dor, na forma em que você ordena as lembranças e na forma em que você ordena as prioridades. A aparência proliferava nos salões dos industriais e no submundo. Ditava normas, se voltava contra suas próprias normas (em revoltas que podiam ser sangrentas, mas que nem por isso deixavam de ser aparentes), ditava novas normas.
- p. 747
O senhor vai me dizer que a literatura não consiste unicamente em obras-primas mas está, sim, povoada de obras ditas menores. Eu também acreditava nisso.
A literatura é um vasto bosque e as obras-primas são os lagos, as árvores imensas ou estranhíssimas, as eloquentes flores preciosas ou as grutas escondidas, mas um bosque também é composto de árvores comuns, de matagais, de charcos, de plantas parasitas, de cogumelos e florezinhas silvestres. Eu me enga-nava. As obras menores, na realidade, não existem. Quero dizer: o autor de uma obra menor não se chama fulaninho ou cicraninho. Fulaninho e cicra-ninho existem, disso não há dúvida, e sofrem e trabalham e publicam em jornais e revistas e de vez em quando até publicam um livro que não desmerece o papel em que está impresso, mas esses livros ou esses artigos, se o senhor olhar com atenção, não são escritos por eles.
Toda obra menor tem um autor secreto e todo autor secreto é, por definição, um escritor de obras-primas. Quem escreveu tal obra menor? Aparente mente um escritor menor. A mulher desse pobre escritor pode atestar, ela viu sentado à mesa, debruçado sobre as páginas em branco, contorcendo-se c deslizando sua pena pelo papel. Parece um testemunho irrefutável. Mas o que viu é apenas a parte exterior. A casca da literatura. Uma aparência — disse o velho ex-escritor a Archimboldi, e Archimboldi se lembrou de Ansky. — Quem na verdade está escrevendo essa obra menor é um escritor secreto que só aceita os ditados de uma obra-prima.
Nosso bom artesão escreve. Está absorto naquilo que vai plasmando bem ou mal no papel. Sua mulher, sem que ele saiba, o observa. É ele efetivamente quem escreve. Mas se sua mulher tivesse visão de raios X perceberia que não assiste propriamente a um exercício de criação literária mas a uma sessão de hipnotismo.
- p. 783
O senhor Bubis o leu numa sentada, em sua sala, e os risos que lhe provocou a leitura foram ouvidos por toda a editora. Desta vez o adiantamento que mandou a Archimboldi foi maior do que todos os anterio-res, a tal ponto que Martha, a secretária, antes de enviar o cheque para Colônia, entrou na sala do senhor Bubis e, mostrando o cheque, perguntou (não uma mas duas vezes) se o valor estava correto, ao que o senhor Bubis respondeu que sim, que era a cifra correta, ou incorreta, tanto fazia, um valor, um número, pensou ele quando tornou a ficar sozinho, sempre é aproximado, não existe número correto, só os nazistas acreditavam no número correto e os professores da matemática elementar, só os sectários, os loucos das pirâmides, os coletores de impostos (que Deus acabe com eles), os numerologistas que am o destino por três vinténs acreditavam no número correto. Os cientistas, pelo contrário, sabiam que todo número é apenas aproximado. Os grandes físicos, os grandes matemáticos, os grandes químicos e os editores sabiam que a gente sempre transita no escuro.
- p. 791
Levantou a vista: de fato, havia muitas estrelas, depois olhou de novo para Ingeborg e deu de ombros.
Não sou tão inteligente — disse —, você sabe.
—Toda essa luz está morta — disse Ingeborg. — Toda essa luz foi emitida bilhões de anos atrás. No passado, entende? Quando a luz dessas estrelas foi emitida nós não existíamos, nem existia vida na terra […]. Essa luz foi emitida faz muito tempo, entende?, é o passado, estamos rodeados de passado, o que já não existe ou só existe na recordação ou nas conjecturas agora está ali, em cima da gente, iluminando as montanhas e a neve e não podemos fazer nada para evitá-lo.
— Um livro velho também é o passado — disse Archimboldi —, um lito escrito e publicado em 1789 é o passado, seu autor já não existe, tampouco existe seu impressor nem seus primeiros leitores nem a época em que o listo foi escrito, mas o livro, a primeira edição desse livro, ainda está aqui.
Como as pirâmides dos astecas — disse Archimboldi.
—Odeio as primeiras edições e as pirâmides, e também odeio esses astecas anguinários - disse Ingeborg. — Mas a luz das estrelas me disturba. Elas me dão vontade de chorar — disse Ingeborg com os olhos úmidos de loucura.