Tradução: Santiago Nazarian Editora: Todavia


Resumo

Deslumbramento é meu segundo romance do Richard Powers. Fiquei muito encantado com a [[Site/Posts/trama_arvores/A trama das árvores|A trama das árvores]] e resolvi investir tempo em outro livro. E foi uma ótima surpresa.

A estória mergulha na relação tocante entre um pai viúvo, Theo Byrne, um astrobiólogo, e seu filho de nove anos, Robin Byrne, um menino neurodivergente de 8 anos que lida com a perda da mãe, Alyssa Byrne.

A trama se desenrola a partir da profunda dor de Theo pela morte de Alyssa e a luta para ajudar Robin a navegar suas intensas emoções e dificuldades sociais. Robin demonstra uma dificuldade em se adaptar às expectativas do mundo, ou seria o mundo que tem dificuldade em aceitar suas excepcionalidades?

Em um ato de desespero e amor, Theo busca a ajuda de seu amigo e neurologista Martin Currier, que desenvolveu uma tecnologia experimental de “neuro-feedback”. Essa tecnologia permite que Robin experimente os padrões cerebrais gravados de outras pessoas. A esperança de Theo é que Robin possa, através dessa inovação, sentir e processar as emoções de sua própria mãe, cujos padrões cerebrais foram meticulosamente registrados antes de sua morte.

O livro é sobre muita coisa. Como educar um filho em meio a um declínio social, ambiental e político? É também é sobre luto humano, ambiental, social. Toda narrativa me envolveu do início ao fim, me conectei e entendi muitas passagens (tenho um filho da mesma idade com algumas particularidades que se aproximam das características de Robin).

É uma estória triste, mas muito profunda e necessária. Como sempre, Powers traz uma excelente reflexão sobre nossos valores mais básicos, sobre a nossa relação com o planeta e com a natureza de uma maneira geral.


Citações

  • p. 11

Estranhamente, o manual de transtornos mentais não tem um nome para a compulsão de diagnosticar pessoas.

  • p. 12

Vendo a medicina fracassar com meu filho, desenvolvi uma teoria excêntrica: A vida é algo que devemos parar de corrigir. Meu menino era um universo em miniatura que eu jamais poderia compreender totalmente. Cada um de nós é um experimento, e nem ao menos sabemos o que esse experimento está testando. Minha esposa saberia como falar com os médicos. Ninguém é perfeito, ela gostava de dizer. Mas, olha, quanta beleza há em nossa imperfeição.

  • p. 133

O Decoded Neurofeedback o estava alterando, assim como a Ritalina teria feito. Mas até aí, tudo no mundo o estava alterando. Cada palavra agressiva de um amigo durante o almoço, cada clique em sua fazendinha virtual, cada espécie que ele pintava, cada minuto de cada vídeo online, todas as histórias que ele lia de noite e todas as outras que eu contava a ele: não havia um “Robin”, não havia um único peregrino naquela procissão de versões, para que ele pudesse continuar sempre sendo o mesmo que. Todo esse cortejo caleidoscópico de versões, marchando pelo tempo e espaço, era em si uma obra em andamento.

  • p. 149

Num só golpe, Inga Alder abriu a mente otimizada com feedbacks do meu filho para uma verdade que eu mesmo nunca tinha parado para pensar: o mundo é um experimento sobre criar validade, e convicção é sua única prova.

  • p. 159

Nós vivemos suspensos entre o amor e o ego.

  • p. 276

Como é que a gente ia reconhecer os alienígenas? A gente nem reconhece os pássaros.

  • p. 321

Enquanto estávamos ali deitados tão próximos, eu sentia seus pensamentos correndo na escuridão. Seus olhos saltavam de estrela em estrela. Estava desenhando, fazendo suas próprias constelações. Quando falou, soava pequeno, mas sábio. Você não devia ficar triste. Estou falando, por causa do telescópio. Ele me assombrou. “Por que não?” O que é que você acha que é maior? O espaço lá fora….? Ele encostou os dedos no meu crânio. Ou aqui dentro? Palavras de Criador de estrelas, de Stapledon, a bíblia da minha juventude, iluminaram-se num lugar esquecido do meu cérebro. Eu não pensava no livro havia décadas. Todo o cosmo era infinitamente menor do que o todo do ser… toda a infinidade do ser sustenta cada momento do cosmo. “Aqui dentro”, eu disse. “Definitivamente aqui dentro.” Tá bom. Então vai ver que os milhões de planetas que nunca lançaram o telescópio têm a mesma sorte que os milhões de planetas que lançaram. “Talvez”, eu disse, e desviei o olhar. Aquele, lá. Ele apontou. O que tá acontecendo naquele? Eu disse a ele. “Naquele, as pessoas podem se dividir ao meio e voltar a crescer como duas pessoas separadas, com todas as suas memórias intactas, Mas só uma vez na vida.”

  • p. 324

Isso é a vida, disse ela. Se eu pudesse ter isso comigo sempre… Uma diferença tão pequena, entre o sempre e o uma vez.

  • p. 329

Havia um planeta que não conseguía entender onde estava todo mundo. Ele morreu de solidão, Isso aconteceu bilhões de vezes só na nossa galáxia.

  • p. 333

Então um dia meu filho está lá, dentro da minha cabeça, tão real quanto a vida. Minha esposa também, ainda dentro dele. O que eles sentiam na época, eu sinto agora. O que é maior, o espaço lá fora ou o aqui dentro? Ele não diz nada. Não precisa. Sei o que ele quer de mim. Ele só quer ver o que tem lá fora. A luz viaja a trezentos mil quilômetros por segundo. Leva noventa e três bilhões de anos para ir de uma extremidade do espaço até a outra, passando por buracos negros, pulsares e quasares, estrelas de nêutrons e préons e quarks, estrelas com linhas metálicas e estrelas retardatárias azuis, sistemas binários e sistemas estelares triplos, aglomerados globulares e hiper compactos, galáxias coronais, marés galácticas, halos galácticos, nebulosas de reflexão e de vento de pulsar, discos estelares, interestelares e intergalácticos, matéria escura e energia es-cura, poeira cósmica, filamentos e vazios, todos engendrados por leis reduzidas a vibrações bem menores do que as menores unidades para as quais temos nomes. O universo é uma coisa viva e meu filho quer que eu dê uma olhada por aí enquanto ainda há tempo. Ascendemos juntos e entramos em órbita bem acima do lugar que estivéramos visitando. Um pensamento lhe ocorre, e eu entendo. Dá pra acreditar onde a gente estava agorinha? Ah, esse planeta era bom. E nós também éramos bons, tão bons quanto o queimar do sol e o dardejar da chuva e o cheiro da terra viva, a onipresente melodia de soluções infinitas assinalando o ar de um mundo em mudança, que, segundo todos os cálculos, nunca deveria ter existido.